quarta-feira, 4 de março de 2009

Soneto à Luciana


Nesse meu momento de penumbra
Anseio por um passado doce
A felicidade vivia comigo
Como se parte de mim fosse

Minha feição aos sorrisos
Minh’alma sempre a levitar
Ocultavam meus olhos sofridos
Por meu peito a palpitar

O céu era azul
Belo o infinito
Uma voz apaixonada

O azul cinza ficou
O coração sombrio
O amor-mortalha

Marccio Santos Poetastro

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Amando-a


Um dia eu quis amar uma mulher
E me entreguei e assim foi
Tantos sonhos, aventuras, desejos
Tudo muito pleno e muito breve

Depois de um tempo me arrisquei a amar novamente
E foi absurdamente instantâneo o querer
Mais sonhos, mais aventuras, mais desejos
Tudo muito pleno e mais breve ainda

Então me recolhi e decidir não amar mais ninguém
Mas eis que surge outra mulher
E pouco a pouco fui amando-a
Mas sem sonhos, nem aventuras e nem desejos

Dessa vez tudo foi muito mais pleno e sem pressa alguma
Fui amando-a apenas com amor e carinho
Daqueles raros, daqueles sinceros
Daqueles que não precisam de sonhos, aventuras e nem desejos

E desde então ela é minha irmã, minha mãe e minha filha
É a pessoa que mais me enxergou por dentro e menos se assustou
É a flor regada de lágrimas que surgiu do deserto do meu eu
É amor, onde sou amado e ela Amanda

Marccio Santos Poetastro

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Lascívia latente


O beijo não dado, o beijo negado, é ser invertebrado
Seca o copo, a boca e a alma
É a desilusão mais sem calma e menos sonora
É a boca quebrada e desejo rachado

Mas o desejo rachado não deixa de ter sua existência
Ele sossega ou aflita na calmaria da vontade e do não se ter
Porém com rédeas, com freios que antes inexistiam
E que agora dominam, tentam dominar esse ímpeto do se querer

O pulsar automaticamente é diminuído
Numa freqüência onde apenas lateja a saudade
Tudo aquilo que se quis agora sopram em brisas leves
Que refrescam, mas que nunca mais se tornarão tempestades

Marccio Santos Poetastro

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Quando o carnaval chegar


Quem me vê sempre parado, distante garante que eu não sei sambar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo molhado de maracujá
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar

Chico Buarque

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

...


E essa chama que nasce do nada
Que desponta no coração por força do desejo
Esse querer que surge e ressurge a cada amanhecer
E se fortalece mais ainda ao cair da noite

Essa angustia pela poesia não vivida
Pelo abraço ainda verde
Pelo beijo ainda não selado
E pelo amor que se engatinha

Esse medo devorador de estar só
De se perder o que nunca se teve
Como se fora um engano do destino
Ou zombaria da predestinação

Essa torturante saudade amargando na boca
Somado a essa sequidão de saliva
Esse engolido seco e vazio
Por esse temor do não ter volta

Essa poesia que nasceu pra morrer
Que acredita que o amor reinará
Que deseja perdão e sentimento
E que nunca deveria ter sido escrita...

Marccio Santos Poetastro

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A flora e a cura


Uma grande flor
Dar ares de como tu és
Com o canteiro a teus pés
Não divisas o amor

Reservas teu pólen para insetos
De destinos incertos
Quando tão perto
Há um beija-flor

A essência que procuras
Não assiste em insetos
Eles não têm a tua ternura

Perceba o amor
Que paira no ar
Um beija-flor

Romero Maia

domingo, 4 de janeiro de 2009

Desatino


Ah, se as exceções fossem as regras
Se os medos fossem as certezas
Viveríamos tão plenos e tão certos
Que os erros nem seriam

Se a queda fosse macia
Tendo como acolchoado o aprendizado
O passo a frente seria mais firme
Assim como seria firme o olhar além da fronteira

Se estivéssemos sempre atentos
A desatenção seria apenas uma nuvem
Que surge e que se vai sem chover
E que não estraga um dia de sol

Talvez seja tola essa utopia, talvez vã
Mas pra ser real basta que se sonhe
Que se queira, que se dê e que se seja
Basta apenas que o coração se apaixone

Marccio Santos Poetastro